O Nome Que Não Deve Ser Acordado

O nome de Eron Valek ainda aparece nos registros, mas quase ninguém em Peronia o pronuncia. Não por respeito — por cuidado.

Eron era pescador. Conhecia o mar como se conhece um parente difícil: nunca confiando, nunca abandonando. Foi numa manhã sem vento que ele encontrou a pedra. Não brilhava. Não chamava atenção. Ainda assim, quando a tocou, o frio subiu pelo braço como se o tempo tivesse parado ali primeiro.

Ele levou a pedra para casa.

Naquela noite, o mar não ondulou. O farol permaneceu aceso, mas sua chama parecia cansada, como se fosse lembrar de apagar e desistisse no último instante.

Eron acreditava que tudo tinha um nome. E acreditava, como muitos antes dele, que conhecer o nome era o mesmo que possuir.

Ele esperou a maré morta.

Sozinho, nas pedras ao norte do porto, feriu a própria mão e deixou o sangue escorrer pelos sulcos da pedra escura. As palavras que recitou não eram completas. Faltavam selos, faltavam avisos, faltava alguém para dizer que não se chama o que não esqueceu de si mesmo.

Quando o último som morreu em sua garganta, o mundo ficou imóvel.

O mar não recuou nem avançou. O vento cessou. Por um instante — breve demais para ser lembrado com precisão — o farol apagou.

Algo respondeu.

Não houve explosão. Não houve grito. Apenas uma pressão, como se o espaço tivesse sido empurrado para dentro de si. A pedra começou a sangrar água salgada. Depois rachou. E, quando se partiu, não libertou uma criatura — libertou uma espera.

Eron voltou ao porto ao amanhecer.

Caminhava. Respirava. Mas não piscava.

Durante três dias, ficou ali, imóvel entre os vivos. Não envelhecia. Não falava. No quarto dia, caiu. Seu corpo estava intacto. Nenhuma marca, nenhuma ferida. Apenas vazio, como um barco que retorna sem ter ido a lugar algum.

A criatura nunca foi vista.

Desde então, naquela parte do mar, as redes voltam leves demais. As bússolas giram sem convicção. Os peixes desviam. Alguns dizem que, à noite, quando tudo está quieto, a água parece ouvir.

A pedra foi recolhida. Fragmentada. Guardada.

Os Memoriários escreveram apenas uma linha no final do registro:

“Não falhou quem tentou invocar.
Falhou quem acreditou que algo anterior ao Dilúvio pudesse ser contido.”

E assim, em Peronia, aprendeu-se que nem tudo que pode ser lembrado deseja retornar.

História e imagens criadas com ajuda do ChatGPT

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